A alta não encerra os efeitos de uma internação na UTI

Ansiedade, depressão e estresse pós-traumático podem permanecer depois da saída do hospital, ampliando a importância do cuidado psicológico durante a internação
Publicado/Atualizado em 29/06/26
Autor Pedro Solly

Profissional de saúde conversa com paciente durante internação. O acompanhamento psicológico pode ajudar a identificar sinais de sofrimento e preparar a continuidade do cuidado após a alta. Crédito: Pró-Saúde.

 

Uma pesquisa publicada em 2024 no South African Medical Journal avaliou 107 adultos seis semanas e seis meses após a alta hospitalar. Na segunda avaliação, quatro em cada dez participantes ainda apresentavam sintomas psicológicos relevantes.

 

 

O resultado veio de um único hospital, na África do Sul, e metade dos participantes havia sido internada por complicações da Covid-19. Os números, portanto, não podem ser projetados para todos os sobreviventes de UTI. Ainda assim, ajudam a mostrar uma parte da recuperação que nem sempre aparece nos exames: a saída do cuidado intensivo não significa que a experiência da internação tenha terminado.

 

Por que a UTI pode deixar marcas

A UTI é um ambiente preparado para atender pacientes em estado grave. Monitoramento contínuo, procedimentos invasivos, alterações no sono, dependência de equipamentos e pouca autonomia fazem parte de uma rotina organizada para preservar a vida, mas que também pode ser difícil de processar.

 

Durante a internação, alguns pacientes passam por períodos de sedação, confusão ou dificuldade para se comunicar. Outros acompanham de forma consciente a própria instabilidade clínica. Depois da alta, lembranças fragmentadas, medo de uma nova hospitalização, alterações de humor, pesadelos e dificuldade para retomar a rotina podem aparecer ou permanecer.

 

Essas reações não acontecem da mesma forma com todas as pessoas. O quadro clínico, o tempo de internação, as experiências vividas na unidade e as condições de saúde anteriores influenciam a recuperação. Por isso, o sofrimento psicológico não deve ser presumido, mas também não pode ser ignorado quando o paciente apresenta sinais de que precisa de ajuda.

 

O que é a síndrome pós-cuidados intensivos

O termo síndrome pós-cuidados intensivos, também conhecido pela sigla PICS, reúne alterações físicas, cognitivas e psicológicas que podem surgir após uma doença crítica. Na dimensão da saúde mental, estão entre as manifestações mais estudadas os sintomas de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.

 

Uma revisão publicada em 2025 na revista Critical Care Clinics destaca que esses efeitos podem persistir por meses ou anos, inclusive quando a recuperação física apresenta boa evolução. Os autores também chamam a atenção para a falta de regularidade na avaliação psicológica de sobreviventes de UTI e para a necessidade de conectar pacientes que apresentam sofrimento ao acompanhamento depois da alta.

Unidade de Terapia Intensiva no Hospital de Campanha de Heliópolis, em São Paulo, durante o período crítico de ocupação de leitos. O monitoramento constante e o ambiente de alta complexidade marcam a experiência da internação. Crédito: Edilson Dantas / Agência O Globo.

 

A identificação pode começar ainda no hospital. Ela não serve para transformar toda reação emocional em um diagnóstico, mas para reconhecer quando o impacto da internação ultrapassa o esperado e exige continuidade do cuidado.

 

A família também atravessa a internação

Quando uma pessoa é levada para a UTI, a rotina da família também muda. Os familiares recebem informações complexas, convivem com períodos de espera e podem precisar participar de decisões em um momento de grande incerteza.

 

As referências técnicas do Conselho Federal de Psicologia tratam o paciente, a família e a instituição como frentes relacionadas do trabalho psicológico no hospital. Na UTI, o profissional também pode facilitar a comunicação entre familiares e equipe, acolher reações diante do quadro clínico e ajudar a organizar informações que chegam em um contexto de forte tensão emocional.

 

Uma experiência de visita ampliada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP registrou redução do medo e da ansiedade entre pacientes e familiares, além de maior segurança na relação com a equipe. O resultado não significa que exista um único modelo de visitação para todas as unidades, mas reforça que presença, comunicação e vínculo também fazem parte do cuidado intensivo.

 

Onde entra a Psicologia Hospitalar

O psicólogo hospitalar não precisa esperar o aparecimento de um transtorno para atuar. O trabalho acontece dentro da rotina assistencial, com avaliações breves, acolhimento em situações de crise, apoio à família e intervenções adaptadas ao estado clínico e à capacidade de comunicação de cada paciente.

Adriano Claudino da Silva durante a recuperação no Hospital da Cidade, em Maceió. Hospitalizado em dezembro, ele destaca o respeito e a presença contínua da equipe como elementos fundamentais de sua reabilitação. Crédito: David Silas / Ascom Maceió Saúde.

 

Em uma UTI, essa atuação pode incluir a identificação de sinais de sofrimento, a escuta das percepções sobre a internação, o auxílio na comunicação de notícias difíceis e a discussão do caso com a equipe multiprofissional. Quando o paciente não consegue falar, recursos de comunicação alternativa e o contato com a família podem assumir um papel ainda mais importante.

 

Antes da alta, também é possível registrar demandas que precisam de acompanhamento, orientar a rede de apoio e articular encaminhamentos para serviços ambulatoriais ou outros pontos da rede de saúde. A Psicologia Hospitalar não substitui o cuidado posterior, mas pode tornar essa transição mais organizada.

 

A alta precisa ser tratada como uma transição

No estudo sul-africano, mais de um terço dos participantes afetados apresentou sintomas psicológicos somente depois da avaliação realizada seis semanas após a alta. O dado mostra que a ausência de sofrimento evidente nos primeiros dias não encerra a necessidade de atenção.

 

O acompanhamento dependerá da realidade de cada serviço e das necessidades do paciente. Ainda assim, a passagem entre hospital e cuidado ambulatorial precisa incluir informações claras para a família, definição de onde buscar ajuda e comunicação entre os profissionais envolvidos.

 

Sair da UTI é uma etapa importante da recuperação. Para parte dos pacientes, porém, recuperar a autonomia, reorganizar as lembranças da internação e voltar à rotina leva mais tempo. Reconhecer esse processo evita que a alta seja confundida com o fim de todas as consequências da doença crítica.

 

Formação para atuar em cenários de alta complexidade

O Curso de Atualização em Psicologia Hospitalar: Evidências, Diretrizes e Protocolos, do HC Educa+, inclui em seu programa a intervenção psicológica em UTI, o cuidado aos familiares, a comunicação com pacientes críticos e a atuação em equipes multiprofissionais. Com início previsto para 1º de setembro de 2026, a formação tem 120 horas e aulas ao vivo.


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