CRISPR no tratamento do câncer: startup de Ribeirão Preto desenvolve novas imunoterapias

Fundada pela pesquisadora Tatiana Cecílio, a EditBio utiliza ferramentas de edição genética para buscar células de defesa mais eficientes contra tumores
Publicado/Atualizado em 28/07/2026
Autora Ana Beatriz Fabbri

Na imagem, da esquerda para a direita, encontram-se a Dra. Heloísa Berti (Gestão de P&D na EditBio), Dra. Flávia Prado (integrante da Agência USP de Inovação), Dra. Tatiana Cecilio (fundadora e CEO da EditBio), o Prof. Dr. Fernando Cunha (na coordenação da Embrapii/FMRP) e a Dra. Letícia Arruda (atuante em PMO/BD na EditBio).

A pesquisa com edição genética vem aproximando biologia molecular, imunologia e desenvolvimento de novas terapias. Em Ribeirão Preto, esse movimento ganhou um exemplo local com a EditBio, startup fundada pela pesquisadora Tatiana Cecílio para desenvolver soluções voltadas ao tratamento do câncer.

 

A empresa trabalha com ferramentas capazes de modificar o DNA de forma direcionada. A proposta é utilizar esse recurso para tornar as células de defesa do próprio organismo mais eficientes no reconhecimento e no combate aos tumores.

Representação ilustrativa da estrutura do DNA. Ferramentas como o CRISPR-Cas9 permitem realizar alterações direcionadas no material genético para fins de pesquisa e desenvolvimento de novas terapias.

A iniciativa ainda está inserida no campo da pesquisa e do desenvolvimento biotecnológico. Portanto, não se trata de um tratamento já disponível para pacientes. O trabalho da startup representa uma etapa anterior: investigar alvos, testar estratégias e reunir evidências para que novas abordagens possam avançar com segurança.

 

Da pesquisa científica para novas aplicações em saúde

Segundo reportagem da CBN Ribeirão, a EditBio busca transformar conhecimento científico em soluções aplicáveis à saúde. O projeto se concentra na edição genética de células do sistema imunológico, uma das frentes estudadas atualmente para ampliar as possibilidades da imunoterapia contra o câncer.

 

A atuação da empresa também evidencia um desafio recorrente da biotecnologia brasileira. Pesquisas nessa área exigem laboratórios especializados, equipes multidisciplinares, testes de segurança e investimento de longo prazo. Tatiana Cecílio destaca que o acesso a recursos privados nas fases iniciais ainda limita o avanço de parte desses projetos no país.

 

Nesse cenário, programas de incentivo à inovação, universidades, hospitais de ensino e ambientes de empreendedorismo científico são importantes para aproximar a pesquisa das necessidades do sistema de saúde.

 

Como funciona a edição genética com CRISPR

O CRISPR-Cas9 é uma ferramenta de edição genética que permite localizar uma região específica do DNA e realizar um corte nesse ponto. Para isso, o sistema combina um RNA-guia, produzido para reconhecer a sequência escolhida, com uma enzima, geralmente a Cas9, responsável pelo corte.

Representação do sistema CRISPR-Cas9 em ação. Orientada pelo RNA-guia, a proteína Cas9 reconhece e corta uma região específica do DNA, permitindo a edição do material genético. Imagem: Shutterstock 

 

Quando a célula repara essa região, os pesquisadores podem inativar um gene, corrigir uma alteração ou introduzir uma modificação planejada. O resultado depende da estratégia utilizada e do objetivo do experimento.

 

No estudo do câncer, essa precisão permite investigar quais genes participam do crescimento dos tumores, da resistência aos medicamentos e da resposta do sistema imunológico. Também abre espaço para modificar células de defesa em laboratório antes que elas sejam utilizadas em abordagens terapêuticas experimentais.

 

Por que o CRISPR ganhou espaço na pesquisa contra o câncer

Na oncologia, o CRISPR pode ser utilizado em duas frentes principais. A primeira é a pesquisa de alvos genéticos. Ao alterar diferentes genes e observar a resposta das células tumorais, os cientistas conseguem identificar mecanismos relacionados à evolução da doença e possíveis caminhos para novos medicamentos.

 

A segunda envolve a engenharia de células imunológicas, especialmente os linfócitos T. Essas células podem ser modificadas para reconhecer melhor determinados sinais presentes nos tumores ou para superar mecanismos que reduzem sua capacidade de ataque.

 

O Instituto Nacional do Câncer informa que células imunológicas editadas por CRISPR já foram avaliadas em estudos iniciais com pacientes. Os resultados ajudaram a demonstrar a viabilidade da estratégia, mas ainda existem questões sobre eficácia, segurança e aplicação em diferentes tipos de câncer.

Fachada do National Cancer Institute (NCI), instituição dos Estados Unidos que conduz e apoia pesquisas sobre prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer. Imagem: National Cancer Institute

 

A tecnologia já chegou à prática clínica em outra área. Em 2023, a agência reguladora dos Estados Unidos aprovou a primeira terapia baseada em CRISPR-Cas9 para a doença falciforme. O avanço mostra que a edição genética pode ser transformada em tratamento, mas não permite concluir que o mesmo resultado esteja pronto para todas as doenças ou para o câncer.

 

Segurança continua sendo parte central do desenvolvimento

A capacidade de alterar o DNA exige controle rigoroso. Um dos principais riscos é a edição fora do alvo, quando a ferramenta modifica uma região diferente daquela planejada. Também existem desafios relacionados à entrega dos componentes do CRISPR às células corretas e à reação do sistema imunológico.

 

Além da etapa científica, uma terapia genética precisa apresentar consistência de fabricação, estabilidade, possibilidade de produção em escala e resultados clínicos que comprovem segurança e eficácia. Diretrizes regulatórias internacionais exigem dados sobre o desenho do produto, os testes realizados, a avaliação pré-clínica e a condução dos estudos com pacientes.

 

Essas exigências ajudam a explicar por que o caminho entre uma descoberta de laboratório e um tratamento disponível costuma ser longo. No caso da EditBio, o trabalho divulgado está justamente nessa trajetória de pesquisa, validação e desenvolvimento.

 

Formação especializada acompanha o avanço da tecnologia

Além de liderar a EditBio como fundadora e diretora científica, Tatiana Cecílio participa da formação de profissionais interessados em edição genética. Ela integra o corpo docente de duas iniciativas do HC Educa+ com propostas complementares.

 

O Curso Avançado em CRISPR: Inovação Biotecnológica em Saúde e Agricultura oferece uma formação ampla sobre os fundamentos e as aplicações da tecnologia. O programa tem 90 horas, formato on-line e início previsto para 25 de agosto de 2026. Entre os conteúdos estão edição genética, doenças hereditárias, terapia oncológica, células CAR-T e manipulação de células imunológicas.

 

Já o Hands-On em CRISPR concentra-se na prática de laboratório. A capacitação presencial possui 40 horas distribuídas em cinco dias e acompanha o fluxo de um experimento, desde o design do RNA-guia até a análise molecular dos resultados. O curso é direcionado a pessoas que já possuem conhecimentos teóricos em biotecnologia, biologia molecular ou áreas relacionadas.

As duas formações mostram como o avanço do CRISPR também aumenta a necessidade de profissionais capazes de compreender suas possibilidades e seus limites. Uma aplicação segura não depende apenas da ferramenta, mas do domínio de protocolos, análise de dados, biossegurança e interpretação crítica dos resultados.

 

O que a iniciativa de Ribeirão Preto representa

A EditBio ainda não representa a chegada de uma nova terapia ao mercado. Seu trabalho aponta para uma etapa necessária da inovação: transformar perguntas científicas em projetos que possam ser testados, aperfeiçoados e, no futuro, avaliados para aplicação clínica.

 

A presença de uma startup com esse foco em Ribeirão Preto reforça a conexão entre pesquisa acadêmica, empreendedorismo e formação profissional existente na região. Também mostra que o desenvolvimento da biotecnologia depende de uma rede formada por cientistas, instituições de ensino, empresas, investidores e órgãos reguladores.

 

Os próximos resultados dependerão da validação das estratégias estudadas, da segurança dos processos e da capacidade de manter o financiamento necessário. Ainda assim, a iniciativa evidencia que a edição genética já ocupa um espaço concreto na pesquisa brasileira e pode abrir novos caminhos para o desenvolvimento de terapias contra o câncer.

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