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Durante décadas, o lactato foi tratado como um resíduo do exercício e apontado como um dos principais responsáveis pela fadiga muscular. A ciência do metabolismo esportivo, no entanto, apresenta uma explicação mais ampla: o composto participa da produção de energia, circula entre diferentes tecidos e pode ser reutilizado pelo organismo.
A concentração de lactato no sangue costuma aumentar quando a intensidade do exercício cresce. Esse comportamento ajuda treinadores, nutricionistas e outros profissionais da saúde a avaliar a resposta do atleta ao esforço e a estimar a intensidade que ele consegue manter por determinado período.
Foi essa relação que a Pós-Graduação em Nutrição Esportiva e Obesidade USP destacou em uma publicação sobre lactato e limiar anaeróbico. O tema é especialmente relevante em modalidades de resistência, mas também ajuda a compreender o desempenho em atividades intensas e repetidas.
O lactato é formado continuamente pelo organismo a partir do metabolismo da glicose. Sua produção pode aumentar em exercícios intensos, quando a demanda por energia cresce rapidamente, mas isso não significa que o processo ocorra apenas na ausência de oxigênio.
Pesquisas do fisiologista George Brooks mostram que o lactato pode ser transportado para outros músculos, para o coração e para o fígado. Nesses locais, ele pode ser oxidado para gerar energia ou utilizado na formação de nova glicose. O composto também participa de mecanismos de sinalização relacionados à resposta do organismo ao exercício.

Isso não elimina a relação entre o aumento do lactato e o esforço intenso. O ponto é que sua presença não deve ser interpretada, isoladamente, como causa direta da fadiga. Ela indica que o metabolismo está respondendo a uma exigência maior e que a velocidade de produção do composto começou a superar sua remoção e utilização.
O chamado limiar anaeróbico é geralmente descrito como a faixa de intensidade em que a concentração de lactato no sangue passa a aumentar de maneira mais acentuada. Na literatura científica, também aparecem termos como limiar de lactato e máxima fase estável de lactato, cada um associado a protocolos e critérios de avaliação específicos.
Na prática, o limiar ajuda a identificar até que ponto o organismo consegue equilibrar a produção e a utilização do lactato durante um esforço contínuo. Quando a intensidade ultrapassa essa faixa, a concentração tende a subir progressivamente e o tempo pelo qual o exercício pode ser sustentado diminui.
Não existe, porém, um único valor que funcione para todas as pessoas. O resultado varia conforme modalidade, nível de treinamento, protocolo adotado e características individuais. Por isso, a interpretação depende do contexto e não deve ser reduzida a uma concentração universal.
Em esportes de resistência, como corrida, ciclismo, natação e triatlo, a capacidade de sustentar uma intensidade elevada por mais tempo tem relação direta com o desempenho. O limiar de lactato é um dos indicadores utilizados para acompanhar essa capacidade.
Um atleta bem treinado pode realizar esforços mais intensos antes que a concentração de lactato aumente de forma contínua. Isso ocorre por adaptações que melhoram a produção de energia, o transporte do lactato e sua utilização por músculos e outros tecidos.
A avaliação também pode orientar zonas de treinamento e acompanhar a resposta a um programa ao longo do tempo. Ainda assim, o lactato não deve ser analisado sozinho. Frequência cardíaca, percepção de esforço, consumo de oxigênio, ritmo e características da modalidade completam a leitura do desempenho.
O treinamento é o principal estímulo para as adaptações relacionadas ao limiar. A nutrição não substitui esse processo, mas pode oferecer as condições necessárias para que o atleta treine, se recupere e mantenha a qualidade das sessões.
Os carboidratos ocupam uma posição central nessa relação. Eles ajudam a manter os estoques de glicogênio muscular e hepático, que são fontes importantes de energia em exercícios intensos e prolongados. Como esses estoques são limitados, a estratégia precisa considerar duração, intensidade, frequência dos treinos e intervalo de recuperação.

A ingestão de líquidos, proteínas e micronutrientes também integra o planejamento, mas não existe uma conduta única para todos. As necessidades variam conforme o tipo de esporte, a rotina, os objetivos, a composição corporal e as condições de saúde do atleta.
Assim, a relação entre alimentação e lactato não deve ser apresentada como uma fórmula para eliminar o composto. O objetivo é sustentar o metabolismo energético, favorecer a recuperação e permitir que o treinamento produza as adaptações esperadas.
A melhora da tolerância ao esforço depende de uma combinação de estímulos bem planejados, recuperação e disponibilidade adequada de energia. Quando o consumo alimentar não acompanha a carga de treinamento, o atleta pode ter dificuldade para manter a intensidade, repor glicogênio e se recuperar entre as sessões.
Por outro lado, a estratégia nutricional também precisa respeitar o objetivo de cada treino. Sessões longas, provas, treinos intervalados e períodos de menor carga podem exigir abordagens diferentes. Esse planejamento deve ser individualizado e conduzido por profissionais habilitados.
O acompanhamento do lactato pode oferecer informações úteis, mas seu valor está na interpretação conjunta com os demais dados. Mais do que buscar um número isolado, o trabalho consiste em compreender como o organismo responde ao esforço e como essa resposta muda com o treinamento.
A revisão de conceitos sobre o lactato mostra como a prática em nutrição esportiva depende de atualização constante. Explicações que pareciam consolidadas podem ser ampliadas à medida que novos estudos esclarecem o funcionamento do metabolismo.
A Pós-Graduação em Nutrição Esportiva e Obesidade USP aborda essa relação entre ciência e prática clínica em conteúdos como bioenergética, fisiologia do exercício, metabolismo de carboidratos, proteínas e lipídios, hidratação e avaliação nutricional. A formação possui 432 horas, é realizada online, com aulas ao vivo quinzenais que permanecem gravadas, e oferece certificado USP.
O curso é direcionado a profissionais da saúde e está com nova turma prevista para breve. A proposta reforça um ponto central do debate sobre lactato e desempenho: decisões nutricionais precisam ser sustentadas por evidências, avaliação individual e conhecimento sobre as respostas do organismo ao exercício.
Brooks, George A. — Lactate as a fulcrum of metabolism: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32113910/
Brooks, George A. — The Science and Translation of Lactate Shuttle Theory: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29617642/
Faude, Kindermann e Meyer — Lactate threshold concepts: how valid are they?: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19453206/
Billat et al. — Maximal lactate steady state: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12744715/
German Nutrition Society — Carbohydrates in Sports Nutrition: https://www.germanjournalsportsmedicine.com/archive/archive-2020/issue-7-8-9/carbohydrates-in-sports-nutrition-position-of-the-working-group-sports-nutrition-of-the-german-nutrition-society-dge/
International Society of Sports Nutrition — Nutrient Timing: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5596471/
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